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S. João da Pesqueira

A vila encantada do coração do Douro guarda segredos mais antigos que os vinhedos que cobrem os seus montes e colinas. Esta é uma terra de bênçãos para os homens de boa vontade. Há mais de mil anos que, nesta terra frutuosa, existem povoados de gente simples, cujas mãos, sangue e suor moldaram os montes ásperos em verdadeiros jardins de vinhedos.

Em momento ignorado, os primeiros judeus estabeleceram-se em São João da Pesqueira, movidos pelas mesmas razões que trouxeram outros crentes. Os documentos mais antigos fazem recuar as notícias da sua presença à primeira metade do século XV. Entre os anos de 1441 e 1445 contavam-se entre os naturais do concelho, Moisés Salam (1441), Isaac Salam (1441), José Barzalai (1441), Abraão Gabey (1442), Abraão Serrano (1451), Jacob Serrano (1455) David Tomias (1455), David Nemias (1455), entre outros. A estes homens, que aqui perdem o anonimato, o rei Afonso V concedeu um conjunto de importantes privilégios. E não eram só estes homens, com eles existiam famílias, mulheres e filhos que desconhecemos, mas que existiram e compunham a comunidade judaica pesqueirense.
Habitavam a vila, tranquilamente, num bairro específico que, segundo a tradição local, começa na Rua dos Gatos e se alargava às suas travessas e azinhagas que hoje desconhecemos. Pela configuração actual da Rua dos Gatos adivinhamos que as casas acompanhavam a antiga muralha da vila, próximas da zona mercantil.

Desconhecemos se o bairro judaico teria portas à entrada da rua que se fechavam à noite, à semelhança das judiarias de Trancoso ou Lamego. Talvez tivessem existido. De manhã, abrindo-se as portas da judiaria, judeus e cristãos frequentavam os mesmos espaços, conviviam, faziam o seu quotidiano em comum. A perceção da existência de uma judiaria não era necessariamente negativa, pois para a comunidade judaica permitia-lhe manter a coesão, as suas leis, os seus costumes, enfim, protegia-os. Hoje é difícil acreditar que estas ruas calmas, onde habitaram as famílias judias, testemunharam de um momento para o outro cenas terríveis de perseguição e crueldade.

No ano de 1492, os reis católicos de Espanha decretaram a expulsão dos judeus e, na fuga, alguns alcançaram São João da Pesqueira. Mal sabiam que, daí a quatro anos, o horror da perseguição aos judeus havia de se alastrar a Portugal. Em Dezembro de 1496, a comunidade judaica sentiu os efeitos do decreto de expulsão manuelino. Atemorizados, uns partiram enquanto outros não conseguiram escapar, tendo sido obrigados a converter-se ao cristianismo. Para sobreviverem, tiveram que criar novas identidades e foram muitas as práticas e os códigos secreto que criaram para manter viva a sua fé.
A comunidade de cristãos-novos de São João da Pesqueira era muito importante para o rei D. Manuel I e, por isso, antes da chegada da Inquisição a Portugal, emitiu-lhes dois diplomas, em 1521, pouco tempo antes da sua morte.

Segundo esses decretos régios, os cristãos-novos não podiam ser presos no julgado de São João da Pesqueira e tinham o privilégio de se proporem ou serem eleitos para cargos concelhios, caso tivessem sido eleitos, além disso equiparavam-nos aos cristãos-velhos em relação a certos impostos e a aposentadoria.
A Inquisição entrou em São João da Pesqueira em Janeiro de 1548. A comunidade cristã-nova foi vítima das primeiras prisões por culpas de judaísmo e, nas décadas seguintes, os processos elevaram-se a mais de uma centena.

Uma das primeiras acusadas, em 1548, foi Branca Nunes, de 60 anos, que acabou por perder a vida nas chamas do auto de fé de 12 de Julho de 1551. Pouco tempo depois, Violante Rodrigues, de 40 anos, após três anos de cárcere, encontrou a morte no auto de fé de 9 de Março de 1567.

A Rua dos Gatos confunde-se com as origens da vila, pois são muitos os pesqueirenses que não hesitam em apontá-la como o local do seu nascimento. Outros há que a remetem logo para a herança judaica e cristã-nova pesqueirense. De resto, o seu aspeto labiríntico, pitoresco e antigo faz da Rua dos Gatos um dos locais mais genuínos de São João da Pesqueira, que demanda por uma visita demorada, de encontro e de diálogo entre cada um de nós e a História.

The enchanted village of the heart of the Douro keeps secrets older than the vineyards that cover its hills and hills. This is a land of blessings to men of good will. For over a thousand years, in this fruitful land, there are villages of simple people, whose hands, blood and sweat have shaped the rough hills into true vineyard gardens.

In an ignored moment, the first Jews settled in São João da Pesqueira, moved by the same reasons that other believers brought. The earliest documents recount news of his presence in the first half of the fifteenth century. Between the years 1441 and 1445 were among the natives of the county, Moses Salam (1441), Isaac Salam (1441), José Barzalai (1441), Abraham Gabey (1442), Abraham Serrano (1451), Jacob Serrano ), David Tomias (1455), David Nemias (1455), among others. To these men, who lose their anonymity here, King Afonso V granted a number of important privileges. But it was not only these men, with them, we also have to think about their families, women and children that we do not know, but that existed and made up the Jewish community “Pesqueirense”.
They lived in the village, quietly, in a specific neighborhood that, according to local tradition, begins at “Rua dos Gatos” and widens to its entrances and hamlets that we do not know today. By the current configuration of “Rua dos Gatos” we can guess that the houses were attached to the old wall of the village, close to the mercantile area.

We do not know if the Jewish quarter would have doors at the entrance of the street that closed at night, similar to the Jewish quarters of Trancoso or Lamego. Maybe they had existed. In the morning, opening the doors of the Jewish quarter, Jews and Christians frequented the same spaces, lived together, made their daily lives in common. The perception of the existence of a Jewry was not necessarily negative, since it allowed the Jewish community to maintain its cohesion, its laws, its customs, and finally protect them. It is hard to believe today that these quiet streets, where the Jewish families lived, witnessed terrible scenes of persecution and cruelty from one mome t to the next.

In the year 1492, the catholic kings of Spain decreed the expulsion of the Jews and, in flight, some reached of S. João da Pesqueira. Little did they know that after four years the horror of persecution of the Jews was to spread to Portugal. In December 1496, the vibrant Jewish community of São João da Pesqueira felt the effects of the “Manuelino” expulsion decree. Frightened, some departed while others could not escape, having been forced to convert to Christianity. In order to survive, they had to create new identities and there were many secret practices and codes they created to keep their faith alive.
The community of New-Christians in São João da Pesqueira was very important to king D. Manuel I, and so, before the arrival of the Inquisition in Portugal, he issued two diplomas in 1521, shortly before his death.

According to these royal decrees, the New-Christians could not be arrested in the trial of S. João da Pesqueira and had the privilege of proposing or being elected to council offices, had they been elected, in addition they were equated with the Old-Christians in relation certain taxes and retirement. However, many of the New-Christians were caught up in the fabric of the Inquisition.

The Inquisition entered São João da Pesqueira in January 1548. The New - Christian community was the victim of the first arrests for the sins of Judaism, and in the following decades, the cases numbered more than a hundred. One of the first accused in 1548 was Branca Nunes, 60, who ended up losing her life in the flames of the “auto de fé” of July 12, 1551. Shortly thereafter, Violante Rodrigues, 40, after three years of Imprisonment, found his death in the auto de fé of 9 March 1567.

The “ Rua dos Gatos” is confused with the origins of the town, since many are “Pesqueirenses” that do not hesitate to indicate it as the place of their birth. Others there are that send it soon to the Jewish and New-Christian heritage. Moreover, its labyrinthine, picturesque and ancient aspect makes “Rua dos Gatos” one of the most genuine places of São João da Pesqueira, which demands a long visit, encounter and dialogue between each one of us and history.

 

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